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A escola não pode ser uma fábrica de alunos - Rui Lima

escola que queremos

Rui Lima tem estado envolvido em diversos projetos nacionais e internacionais relacionados com o tema. Considerado em 2011 um dos 18 professores mais inovadores do mundo, segundo a Microsoft, acaba de lançar um livro que promete ser mais uma acha para a já muito acessa discussão em torno da escola na atualidade.

Em Portugal já há professores a pensar fora da caixa, a arriscar novas abordagens que incentivam o risco e a experimentação, alunos motivados que pintam o céu de amarelo às bolinhas rosa e que apesar de não conseguirem o sucesso nas “disciplinas nucleares” (seja lá isso o que for) possuem qualidades incríveis. Escolas inovadoras, que estimulam a curiosidade e que se transformaram em autênticos espaços de descoberta de talentos.

O mundo mudou (muito) nos últimos anos, mas a escola não. É preciso pensar a escola que queremos para o século XXI. E a resposta deve ser dada por todos: pais, professores e alunos. Com o objetivo de criarmos alunos que vão mudar o mundo.

Excertos do recém-lançado livro "A escola que temos e a escola que queremos"- O que se passa com a Educação? Um olhar sobre as principais preocupações de pais, alunos e profesores. Ed. Manuscrito.

Fonte: VISÃO

"A escola não pode ser uma fábrica de alunos"

Todos os professores sabem quão difícil é o primeiro dia em que se chega a uma nova escola. Principalmente, quando se trata da primeira escola em que lecionam. Como serão os alunos? Como serão os colegas? Terei as condições adequadas para aplicar as minhas ideias? Todas estas questões ecoam nas suas mentes, gerando alguma ansiedade típica nestas situações.

Quando, em janeiro de 2001, soube que iria substituir uma colega que estava de baixa, senti, por um lado, a ansiedade de ter uma turma sob a minha responsabilidade e o receio, natural, de não corresponder àquilo que se espera de um professor. Por outro lado, uma vontade extraordinária de estar em frente a um grupo de alunos, de partilhar com eles o que sabia, de os desafiar a alcançar os objetivos e, porque não, de aprendermos todos numa fase tão precoce da nossa aprendizagem: eles como alunos, eu como professor.

Por isso mesmo, foi com enorme satisfação que, chegado à primeira escola onde trabalhei, tive o apoio dos colegas que, além de me mostrarem o espaço, me deram informações extremamente úteis sobre o funcionamento da escola e de alguns procedimentos burocráticos que eu desconhecia. Contudo, uma das colegas, no final desse mesmo dia, deu-me também uma sugestão que, ainda hoje, continuo a considerar como um dos momentos mais marcantes da minha carreira como professor. Disse-me: «Nos primeiros tempos, não lhes podes mostrar os dentes!»

Ao ouvir aquela frase, assenti e fingi reconhecer nela um valor que, por mais que tentasse, não conseguia perceber. Por que razão deveria eu criar uma barreira emocional com os alunos? Por que razão deveriam os alunos ter ali, à sua frente, alguém sisudo, distante e que se recusasse a mostrar-lhes os dentes? No primeiro dia de aulas, como é evidente, fiz precisamente o oposto do que me tinha sugerido a colega e procurei fazer com os alunos uma aula tão divertida que nos pusesse a todos a mostrar a «dentadura». Cantámos, contámos histórias, anedotas e até brincámos uns com os outros. Rimo-nos, rimo-nos muito. Creio que até nos rimos de mais. Talvez a colega, na sala ao lado, ao ouvir as nossas gargalhadas, tenha vaticinado o meu fracasso como professor. Mas eu senti-me bem, principalmente, porque foi a primeira vez que decidi fazer algo diferente do habitual, ou seja, arrisquei.

Fazer algo diferente do habitual, «fora da caixa», romper com as práticas fortemente enraizadas nas escolas e no seio da profissão docente é, talvez, um dos maiores desafios que se põem a um professor.

Essa dificuldade explica, de certa forma, o porquê de a Escola se manter inalterada ao longo das últimas duas décadas, aliada às intensas forças de bloqueio à inovação e à escassez de recursos materiais e humanos.

Embora com algumas diferenças de país para país, assistimos à massificação da Escola no início do século XIX, sendo que a forma como esta se organizou e as estratégias aplicadas na sala de aula sofreram muito poucas alterações desde então. O papel de professores e alunos tem-se mantido, praticamente, inalterado. Cabe ao professor transmitir conhecimentos e fazer cumprir a disciplina na sala de aula; ao aluno, receber ensinamentos e respeitar as regras impostas pelo professor. A comunicação ocorre, quase exclusivamente, de modo unidirecional e a interação professor-aluno é praticamente nula, com exceção das habituais perguntas-teste, que permitem ao professor averiguar de que forma os alunos estão a assimilar os conhecimentos transmitidos.

Muitos dos professores com quem tenho trabalhado nos últimos anos, nesta área da inovação pedagógica, quer no âmbito nacional, quer internacional, têm procurado fazer a diferença por meio da execução de abordagens mais centradas no aluno, diferenciadoras do ponto de vista pedagógico, em que o professor procura, acima de tudo, ser um orientador. No entanto, são também eles que mostram alguma frustração por verem que, apesar de o mundo ter sofrido grandes transformações nos últimos cem anos, a Escola permanece quase inalterada desde a revolução industrial, condicionando muitas das práticas que pretendem aplicar nas suas aulas.

A base para o funcionamento das escolas e das salas de aula emergiu do conceito de instrução inerente ao, até então, principal veículo de transmissão de conhecimentos nas sociedades ocidentais — a Igreja. O papel do professor-padre que, tal como na missa, transmite os conhecimentos aos alunos que se encontram à sua frente, dispostos em filas, prontos a receber os ensinamentos que este tem para lhes dar é um retrato fiel daquilo que ocorre ainda hoje, na generalidade das escolas pelo mundo fora.

Outro aspeto determinante para o funcionamento da Escola é o facto de esta ter emergido dos princípios subjacentes ao fordismo e ao taylorismo, da linha de montagem e do conhecimento compartimentado. Assim, uma Escola estratificada — organizada em anos ou ciclos, com os alunos divididos por idades e a seguir um plano de aprendizagem, em que cada disciplina está isolada das restantes — tem-se mantido como o modelo de funcionamento privilegiado nos vários sistemas de ensino. É o conceito de escola-fábrica, no qual os alunos são a matéria-prima moldada e transformada ao longo do percurso escolar.

As escolas continuam a ver os alunos como um produto, que, tal como numa fábrica de automóveis do século XX, entra na linha de montagem, é moldado, transformado, sujeito a diferentes modificações ao longo de um processo que se inicia aos seis anos e, caso o «produto» não apresente qualquer «defeito» que obrigue a uma retenção e consequente repetição do seu processo de (trans)formação, termina ao fim de doze anos, para posterior acesso a uma formação universitária, também ela com pouco relevo do papel do aluno no seu percurso académico.

Em Portugal, a massificação da Escola esteve também associada a um período da nossa História, cujo papel se centrava na transmissão de uma doutrina, sendo que, ao professor cabia, acima de tudo, o papel de grande doutrinador. No contexto político, social e económico vivido no Estado Novo, a função da Escola — tendo em conta os perigos que o conhecimento e o acesso a ideias vindas de fora poderiam pôr em causa a própria ditadura — assentava numa instrução que impusesse «[...] regras de educação moral e cívica tão precisas e tão bem aplicadas que anulassem, na raiz, os virtuais perigos que a leitura e a escrita acarretavam» (Carvalho, 2001). Ou seja, ensinar a ler e a escrever, mas não ensinar a pensar, a questionar ou a procurar novas fontes.

O professor (e também os regentes que se espalharam por várias zonas rurais do nosso território) emergiu, então, como figura de máxima importância num sistema educativo que visava, acima de tudo, transmitir a doutrina do regime e formar cidadãos obedientes e fiéis às suas ideias.

Cabia à Escola preparar as crianças e os jovens para uma vida ativa que, geralmente, se iniciava logo após o término do Ensino Primário, com o Exame da quarta classe e que, salvo raras exceções, conduzia as crianças para o mercado de trabalho ainda em idade precoce. Antes do 25 de abril de 1974, cabia, portanto, à Escola dar as competências básicas: ler, escrever e contar, tantas vezes ainda mencionadas, e com alguma razão, como determinantes no primeiro ciclo dos nossos tempos, formar cidadãos obedientes (com acesso limitado a informação vinda do exterior), que revelassem pouco interesse em procurar novas ideias que poderiam pôr em causa o regime e que se mostrassem minimamente preparados para entrar no mercado de trabalho desempenhando funções, essencialmente, na agricultura, indústria e ofícios.

Mas o mundo nos últimos cem anos, mudou radicalmente, e mudou mais ainda nos últimos vinte anos. A forma como as pessoas comunicam, a forma como as pessoas interagem e acedem à informação, a própria forma como as pessoas usam o cérebro alterou-se para se ajustar a um mundo cada vez mais tecnológico, onde tudo se encontra à distância de um clique e ao qual estamos ligados vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Qualquer um de nós sabe, por experiência própria, o quão difícil é hoje memorizarmos os números de telefone, até da família e amigos mais chegados. Todos seremos capazes de reconhecer que não é uma sensação agradável aquela que sentimos quando nos apercebemos de que não trazemos o telefone connosco ou quando, sem esperar, ficamos sem acesso à Internet. Os smartphones, neste contexto, elevaram ainda mais a dependência que temos da tecnologia e a necessidade de estarmos constantemente ligados ao mundo.

Nativos, fugitivos e emigrantes digitais

É neste cenário, de um mundo cada vez mais tecnológico, ao qual estamos permanentemente ligados, que os nossos alunos crescem, vivem, comunicam e aprendem diariamente.

Qualquer pessoa que conviva regularmente com crianças, quer em contexto profissional, quer familiar, já presenciou a situações em que bebés ou crianças utilizam dispositivos como smartphones, tablets ou computadores com uma facilidade absolutamente incrível. A sua relação com a tecnologia espanta, não raras vezes, os adultos e por vezes até são estes que solicitam a ajuda dos mais novos para resolverem problemas que não são capazes de ultrapassar.

Em 2014, participei num acontecimento em Atenas, no âmbito da iniciativa da Comissão Europeia E-Skills for Jobs, e uma investigadora de uma universidade cipriota fez uma apresentação muito interessante centrada na tipologia dos vários intervenientes no processo educativo, distinguindo três tipos de pessoas: os Nativos Digitais, os Emigrantes Digitais e os Fugitivos Digitais.

O nativo digital é aquele que nasceu e cresceu rodeado de tecnologia e que tem uma relação natural com ela, fazendo uso da mesma no seu dia a dia e reagindo com facilidade ao processo de inovação e mudança característico dos tempos modernos. É aquele que procura informação online, que «sofre» quando não está «ligado» à rede e que encontra na tecnologia a forma ideal para comunicar com os outros. A generalidade dos nossos alunos enquadra-se nesta tipologia de indivíduo. As crianças e os jovens têm uma relação com a tecnologia quase umbilical e quer a sua forma de agir, quer a própria linguagem mudaram a perspetiva que temos da forma de comunicar com as pessoas. A utilização das redes sociais, a dependência de dispositivos eletrónicos como smartphones, tablets e computadores, a utilização de abreviaturas e emojis (ícones habitualmente usados em chats e SMS) na troca de mensagens, o recurso a realidade aumentada, a facilidade com que se adaptam rapidamente às novas tecnologias e ferramentas são todas características de uma geração que vive em estreita relação com o mundo digital.

Já o Fugitivo Digital é aquele que — apesar de usar a tecnologia no seu quotidiano, essencialmente para comunicar, aceder aos e-mails, consultar alguma informação — se recusa a ver na tecnologia uma ferramenta de trabalho ou de aprendizagem.

O professor Fugitivo Digital pode até reconhecer na tecnologia um valor adicional para a aprendizagem, contudo, o receio de não dominar as ferramentas tão bem quanto os alunos, o medo de transmitir uma imagem de incapacidade ou a simples ideia de que os alunos não vão ver em si uma figura de autoridade e conhecimento levam-no a recusar a utilização da tecnologia na sala de aula.

Por fim, temos o Emigrante Digital, que somos quase todos nós. Todos os que cresceram com acesso limitado à tecnologia, pelo menos a que deu origem aos dispositivos que hoje fazem parte do nosso quotidiano. O Emigrante Digital teve de se adaptar, de uma forma mais ou menos violenta, ao aparecimento de inúmeros dispositivos, gadgets, programas e aplicações sem ter, na maioria dos casos, as competências básicas para uma rápida compreensão do seu funcionamento. Esta dificuldade em se adaptar a uma mudança permanente e rápida às novas tecnologias, às novas formas de comunicar, às novas ferramentas gera em muitos de nós um desconforto e uma natural tendência para resistir a essa mesma mudança. Para um Emigrante Digital, que quando procura compreender como funciona a última versão do sistema operativo do seu computador se vê confrontado com uma nova versão, com novas funcionalidades e até com uma apresentação radicalmente diferente da anterior, o processo de aceitação da mudança não é fácil, sendo frequente recusar o upgrade ou voltar a instalar a versão antiga, pois era aquela com que se sentia mais à vontade. Mas uma das principais características do Emigrante Digital é a sua crescente vontade de aprender, de se adaptar a estas novas ferramentas, mesmo que nem sempre lide de uma forma pacífica com a inovação. Mas tal como o emigrante que vai viver para outro país e procura assimilar alguma da cultura e dos hábitos locais, também o Emigrante Digital procura adaptar-se a um novo mundo, às novas formas de comunicar, às novas formas de aprender e de ensinar.

A relação entre estes três tipos de indivíduos seria, por si só, complexa em qualquer contexto, contudo, na escola, assume-se com mais relevo, na medida em que se trata da formação de crianças que têm como mentores adultos nem sempre conscientes das diferenças existentes entre as gerações e as transformações que o mundo sofreu nos últimos dez, vinte, cinquenta ou cem anos.

É verdade que o conceito de Generation Gap está sempre muito presente no debate sobre a educação e o desenvolvimento das crianças e jovens, não obstante, no contexto global atual, as vivências de uma criança e de um jovem são radicalmente diferentes das dos seus pais e professores, mesmo nos casos em que a diferença de idades seja de apenas vinte anos.

Millennials e Geração Z

Outro conceito relativamente recente que nos pode ser bastante útil para a reflexão sobre a Escola e os vários intervenientes no processo de ensino-aprendizagem é o de Millennials. Os Millennials são as pessoas que atingiram a idade adulta por volta do ano 2000, na viragem do milénio, daí a sua designação. São indivíduos que, como referimos no caso dos Emigrantes Digitais, procuram constantemente adaptar-se a novas ideias, novas ferramentas, a uma nova forma de viver, comunicar e interagir com os outros.

Esta geração, que nasceu após a década de 80 do século XX, tem características bastante peculiares no que toca à forma como se comporta em sociedade, se relaciona com os outros e se interessa pelos aspetos tanto culturais quanto sociais. Os Millennials cresceram numa época em que se deu o boom da televisão e com ela da publicidade, por isso, têm uma atitude crítica em relação à forma como os conteúdos lhes são apresentados. O facto de terem crescido durante a revolução tecnológica faz com que estejam despertos para as novas tecnologias e percebam como podem ser importantes para a sua vida. Contudo, apesar de terem crescido com a Internet e, por isso, serem capazes de se adaptar ao papel central que esta assume nas nossas vidas, os Millennials ainda têm alguma dificuldade em lidar com as recentes inovações que esta rede nos tem trazido nos últimos anos.

Quando falamos da Escola e das potencialidades que a tecnologia nos oferece para enriquecer o processo de ensino-aprendizagem, ainda é difícil, mesmo para os professores mais jovens que se enquadram na faixa etária dos Millennials, compreender a importância da utilização de serviços na nuvem, da programação, da criação e da partilha de conteúdos digitais online, software de colaboração online ou outras ferramentas e estratégias que enriqueçam todo o processo de aprendizagem.

Já os jovens e as crianças em idade escolar, que fazem parte da denominada Geração Z, definida como a que nasceu após o ano 2000, tendem a ter mais facilidade em interiorizar todos estes conceitos.

A experiência que tenho tido nos últimos anos, quer como professor, quer como participante em projetos que envolvem alunos de diferentes contextos geográficos, faixas etárias e níveis de ensino, mostrou-me que os alunos interiorizam com mais facilidade os conceitos acima referidos. Utilizar serviços na nuvem para partilha de documentos, trabalho colaborativo ou comunicação entre pares é, para os alunos, extremamente intuitivo, de fácil compreensão e rapidamente assimilado, com vista à valorização do seu próprio processo de aprendizagem.

Todavia, o que distingue os Millennials e a Geração Z das gerações que lhes precederam é, essencialmente, a forma como comunicam, interagem e sociabilizam. Os últimos dez anos trouxeram-nos um mundo cada vez mais global, cujo fluxo de informação circula a uma velocidade alucinante e ao qual o ser humano passou a estar ligado à distância de um clique ou, mais recentemente, de um toque no ecrã. As relações passaram a situar-se num plano real, mas também num plano virtual. As próprias relações laborais se viram alteradas, havendo um número cada vez maior de pessoas a trabalhar de casa ou de qualquer outro espaço físico que não um escritório.

Se olharmos para o mercado de trabalho de há dez anos, em comparação com o de hoje, facilmente veremos que há um crescente número de empregos que não existiam e que hoje são profissões em ascensão. Falamos, essencialmente, de empregos na área das novas tecnologias, da programação, dos serviços na nuvem e de gestão de redes. Estima-se que muitos dos empregos que os nossos filhos terão ainda não existam à data. Como tal, é essencial prepará-los para um mundo em constante mudança, no qual a comunicação assuma formas distintas das que temos hoje, um mundo cada vez mais tecnológico ao serviço das pessoas, caracterizado por uma maior flexibilização do mercado de trabalho, dos ambientes laborais e da forma como cada indivíduo desempenha as suas funções.

O mundo mudou bastante nos últimos vinte anos, mas acreditamos que mudará ainda mais nos próximos vinte. Contudo, a Escola alterou-se muito pouco nos últimos cento e cinquenta anos, quer na sua organização, quer na forma como ocorrem as interações em contexto de aprendizagem.

Partindo desta ideia e de que os professores são, essencialmente, Emigrantes ou Fugitivos Digitais, a contrastar com os alunos Nativos Digitais, podemos recorrer às palavras de José Pacheco, um dos fundadores da Escola da Ponte que, numa entrevista ao Observador, em abril de 2016, defendia que «As escolas têm excelentes professores, mas a trabalhar do modo errado. Não faz sentido alunos do século XXI terem professores do século XX, com propostas teóricas do século XIX, da Revolução Industrial». É precisamente este um dos problemas que a Escola enfrenta, tendo em conta os diferentes conceitos que os vários intervenientes no processo educativo têm do modo de funcionamento das instituições, das abordagens pedagógicas a aplicar nas salas de aula, do processo de aprendizagem e dos papéis dos vários atores na relação pedagógica.

A Escola não pode continuar a ser uma mera fábrica de alunos, onde estes entram aos seis anos, são submetidos a modelos pedagógicos centrados nos conteúdos e no professor, testados e examinados ao fim de um percurso académico uniforme e, passado pouco mais de um decénio e meio, esperarmos que estejam preparados para um mundo completamente diferente daquele que viveram nas escolas e nas salas de aula.

Está na hora de olhar para o futuro e de procurar mudar a forma como preparamos os alunos para um mundo cada vez mais exigente e desafiador da criatividade, do pensamento crítico, da colaboração e da utilização de um elevado número de ferramentas tecnológicas para comunicar, aprender e executar tarefas."

Fonte: Expresso

A escola que temos é a escola que queremos?

Ouvir um professor falar por 45 ou 90 minutos já não é suficiente para os alunos. A criança precisa de mexer e criar. Aos seis anos, quando chegam ao primeiro ano, já usam os aparelhos tecnológicos como a maior das naturalidades. Sabem o que é o Youtube e o Google. É preciso uma “escola mais virada para o século XXI”. E a mudança deve começar pelos professores na sala de aula, até porque “se estamos à espera que a mudança aconteça por decreto, não acontece”

“Professor, e se fossemos ver um tutorial ao Youtube?” Foi assim que um aluno de Rui Lima propôs resolver uma dúvida na sala de aula. Ferramentas destas já são usadas facilmente por miúdos de seis e sete anos. Quando chegam à escola já as dominam. Os modelos tradicionais já não são suficientes para as crianças de hoje, que são impacientes e querem coisas novas a todo o momento. Rui Lima é diretor pedagógico do Colégio Monte Flor, em Carnaxide, e está entre os professores mais inovadores do mundo, segundo a Microsoft. Esta quinta-feira, apresenta a sua reflexão, que passou a livro, sobre a experiência como professor e como aluno.

O que trata o livro “A escola que temos e a escola que queremos”?
Não é um livro só para professores ou pais. É um livro para o público em geral, para quem está interessado na educação, no ensino e na mudança que é preciso operar para termos uma escola mais virada para o século XXI. Acaba por ser uma reflexão de 16 anos como professor e mais alguns como aluno. É essencialmente uma reflexão em que conto também algumas histórias passadas com os alunos, tendo sempre essa vertente de análise em relação à forma como a escola está organizada hoje e como gostaríamos que a escola tivesse organizada no futuro. Não é um livro como receita para ser bom professor ou pai ou mão. É uma reflexão.

É preciso refletir porque já é tempo de mudar?
Exato. Gosto da mudança e penso que seja muitas vezes positiva. Na escola, também é positiva, embora não acredite de todo nas revoluções feita de forma irrefletida. Creio que a mudança é precisa mas também a devemos operar com alguma moderação e dando passos seguros em vez de dar passos no desconhecido. Já assistimos a alguma mudança nos últimos tempos: da parte dos professores e do lado das instituições que mandam. Principalmente da parte dos professores, há uma necessidade de querer mudar as coisas. Os professores começam a perceber que os modelos tradicionais já não são suficientes para estes alunos. Já há muito tempo que não eram.

Os alunos estão diferentes?
Não são só os alunos… nós também. Por exemplo, há uns tempos memorizávamos o número de telefone de toda a gente e agora não memorizamos o telefone de ninguém. Esse é um pequeno exemplo de como o nosso comportamento mudou. Ainda hoje tive conhecimento que o principal motor de busca já não é o Google, é o Youtube. Olhamos para as crianças e jovens, eles praticamente já não veem televisão, vão ao Youtube. Os ídolos deles são os youtubers… No outro dia, um dos meus alunos não sabia fazer uma coisa e eu não era capaz de o ajudar naquele momento e ele disse-me “professor, talvez seja melhor irmos ao Youtube ver um tutorial”. É assim que eles aprendem. Portanto, é evidente que estarem a ouvir um professor durante 45 ou 90 minutos é difícil. Mudaram eles e mudamos nós. Por vezes, falamos da tecnologia como o grande segredo do sucesso da escola, mas não creio que assim seja. É evidente que a tecnologia não pode ficar fora da escola, mas temos de ouvir os alunos, que precisam de participar mais e serem mais ativos na sala de aula. É necessário que o aluno deixe de ser apenas um consumidor – e, neste momento, é completamente passivo – e passe a ser um criador e produtor de recursos. Por isso é que são desafiados a criar a apresentações, filmes, peças de teatro, cartazes, etc. O processo de criar, além de os tornar mais criativos, faz com que assimilem conhecimentos e adquiram competências.

Já dá aulas há 16 anos. Como eram os alunos da sua primeira turma e como são os alunos atuais?
São muitas as diferenças, mas ao mesmo tempo não deixam de ser crianças. Hoje em dia têm maior capacidade de argumentação, em parte fruto de alguma relação com a sociedade em que as crianças decidem muita coisa. Também há o fator perverso de questionarem tudo que lhes é apresentado, que é positivo, mas por vezes também é negativo. Enquanto em 2000 o contacto com a tecnologia começava a fazer-se na escola, atualmente chegam à escola e já não é preciso ensinar-lhes tecnologia. O que é necessário é explicar como tirar proveito daquele know how da tecnologia para aprender. Uma das histórias mais engraçadas que tenho é com uma aluna que queria levar um coelhinho para a sala de aula. Então, mandou-me uma mensagem pelo skype a perguntar-me se podia levar o coelhinho na sexta-feira. Às 19h desse mesmo dia, respondi-lhe logo a dizer que sim. E ela levou. Ora, se isto acontecesse com a turma a que dei aulas em 2000, a aluna só me pedia autorização na sexta-feira, teria que esperar o fim de semana e só na segunda-feira poderia levar o coelhinho. Isto, apesar de ser só a história de levar um animal de estimação para a escola, retrata muito a dificuldade que os alunos têm em esperar. Mesmo os adultos têm muita dificuldade em esperar. Os alunos de hoje querem tudo no imediato e querem ter muitas experiências ao mesmo tempo. Essa impaciência podemos considerá-la negativa, mas também positiva, porque são alunos muito ativos, com muita dinâmica e com espírito de iniciativa. Temos de aproveitar aquilo que a sociedade nos está a dar e jogar a nosso favor.

Considera que há uma crescente preocupação com a educação que estamos a dar às crianças?
Se olharmos para a posição que a criança assumia no meio da família há 30 anos, a criança não estava no centro. Normalmente era o pai. Costumo dizer na brincadeira que era o pai que comia a melhor posta de peixe que havia em casa e, atualmente, a melhor posta de peixe vai para os filhos. Essa preocupação com as crianças é hoje maior e ainda bem. Também graças à escola, e por isso é que digo que não faz sentido eliminar tudo o que a escola nos deu, temos uma sociedade mais bem informada para as necessidades das crianças e é natural que a sociedade queira essa mudança. A escola é para as crianças e ainda bem que estamos tão preocupados em melhorar as condições em que cada criança aprende. Até porque hoje em dia, finalmente, começa também a vingar a ideia de um ensino personalizado que não é igual para todos.

Quais sãos os sinais ou medidas que mostram que a ideia de um ensino personalizado está a vingar?
Sem querer tornar isto político, na educação tem de haver alguma harmonia política e de continuidade. Durante o mandato do anterior Governo, houve uma preocupação com as metas, os resultados e os exames, toldando um bocadinho a visão das pessoas para esta dimensão do indivíduo e de dar alguma liberdade à criança para decidir a sua aprendizagem. Agora, assistimos a um virar de página. Apesar de acreditar que sim, não sei se o virar de página vai ter os resultados que as pessoas esperam - até porque é muito difícil medir os resultados quando falamos de outro tipo de competências. Quando digo que existe uma mudança, refiro-me às conferências em que participo, onde até há três ou quatro anos via sempre as mesmas caras. Nos últimos meses, há uma grande adesão por parte das pessoas às novas abordagens e um grande interesse por projetos de inovação pedagógica (não só tecnológicos). Esse entusiasmo parte dos professores e creio que é mesmo daí que deve partir. Se estamos à espera que a mudança aconteça por decreto, não acontece. A mudança deve começar nas escolas, estender-se para cima em vez de esperarmos que venha uma diretiva ministerial que nos faça mudar.

No ano passado, o número de alunos em ensino doméstico triplicou. Acha que esta tendência está relacionada com a maior preocupação na educação e com as novas abordagens?
Além do ensino doméstico, têm-se falado no unschooling. Sou sempre suspeito, porque sou professor, acredito na escola, nas relações que se vivem na escola e em tudo o que uma criança pode experimentar na escola. Compreendo estas formas de ensino. A minha lógica é: a decisão dos pais passa por acharem que aquilo é melhor para o filho ou por não acreditarem que mais alguém consegue fazer o trabalho de educar os seus filhos. Atualmente temos alunos que são muito protegidos e tornam-se mais inseguros. Se essas abordagens alternativas ainda contribuem mais para o isolamento da criança, não acredito que sejam positivas. Acho que a escola deve recriar o que acontece na sociedade. Em sociedade, interagimos e aprendemos com as outras pessoas. Estarmos fechados num meio muito protegido pode não ser positivo. É certo que o ensino doméstico compreende também um conjunto de atividades que a criança pode fazer estando com outras crianças. Se tivermos uma escola que promova uma aprendizagem mais ampla e diversificada, é isso que a escola passa a ser: um playground de aprendizagem, onde as crianças podem brincar, divertir-se, trabalhar em grupo ou sozinhas, desenvolvendo as competências com profissionais especializados e com os pais.

Neste momento estão a ser discutidas mudanças no currículo, nomeadamente a carga horária de algumas disciplinas. Estas mudanças fazem sentido?
Para mim fazia sentido a mudança na visão que havia dos currículos e das metas, principalmente porque estava muito virada para o exame e a medição. Creio que era preciso tornar os currículos um bocadinho menos densos, flexibilizá-los e flexibilizar a forma como as disciplinas se interligam. O novo perfil do aluno remete muito para a interdisciplinaridade e também para a questão dos indivíduos e dos valores. No fundo, flexibilizar vai permitir que não haja uma obsessão com os currículos, que não haja uma obsessão com os resultados, sendo possível explorar as competências das crianças. Com isto não quero nunca perder a exigência – isto é uma crítica legítima que tem sido feita. O facilitismo prende-se essencialmente quando desistimos do aluno. Isso é que é fácil. A ideia é flexibilizar sem nunca perder a exigência. Sou muito exigente com os meus alunos no dia-a-dia. Quando fazem os trabalhos de grupo, quero rigor científico. Não é preciso ser só exigente com os testes. Não é preciso chumbar muito ou dar muitas negativas para ser um professor exigente.

Em 2011, foi considerado pela Microsoft um dos 18 professores mais inovadores do mundo. Em 2013, foi distinguido a nível nacional e desde 2014 tem, novamente, integrado o grupo de professores mais inovadores a nível mundial. Como se inova na sala de aula?
Esta distinção não está de forma alguma relacionada com a utilização das ferramentas da marca, mas com o programa de implementação de ideias inovadoras na sala de aula. Há professores que já ganharam este prémio que não têm muita tecnologia na sala de aula, mas são inovadores. Inovar é dar à criança um papel mais ativo, é usar estratégias que sejam centradas nos alunos e que respeitem a sua diversidade e os seus desejos, tentando extrair deles o melhor dando-lhes as bases. Gosto muito que os alunos tenham as bases de português, matemática, das línguas… em todo o caso, não nos podemos esquecer que há crianças que têm mais vocação para as artes ou para as relações interpessoais. Conhecemos muita gente que não teve sucesso na escola, mas que depois foram pessoas de grande sucesso profissional precisamente pela capacidade de liderança, pelo espírito de equipa, criatividade, etc. Inovar é isso. É respeitar isso, tentar fazer com que os alunos gostem de estar nas aulas e de aprender.

Anexos:
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